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Ao contrário do que possa parecer, um psicanalista não é um prestador de serviços. A natureza do meu trabalho não se esgota no final de cada sessão. O que eu construo com os pacientes não é da ordem do serviço, mas da relação. E é essa relação que torna o serviço transformador e rico.
Do mesmo modo, parece-me que há esta ideia sinistra de que os psicanalistas trabalham com toda a gente que lhes bate à porta. Que só uma agenda cheia permite não receber novos pacientes, um limite intransponível da realidade. Mas há outros limites, sendo o mais importante o limite da vontade. Eu trabalho com quem me parece querer trabalhar, poder trabalhar e perceber que o tal serviço se faz de tudo isso.
As sessões reais têm início e fim, mas acredito que os meus pacientes levem a análise consigo, tal como eu fico com eles quando voltam às suas vidas. É nesta dialética, deste par terapêutico, que se metabolizam dores, sofrimentos, dinâmicas inconscientes que precisam de ver a luz do dia para poderem ser reconhecidas e alteradas.
Nesta dialética cabe tudo o que os pacientes trazem: não só o sofrimento, mas a zanga, a raiva, o ódio, a inveja, toda a sorte de formas de amor e desamor que também replicam na análise. É também por isto que um psicanalista não é um prestador de serviços. Porque, quando bem analisado, bem supervisionado e bem ligado ao paciente, sabe que a raiva que ele está a colocar na relação comunica qualquer coisa de fundamental para aquela pessoa se poder sentir vista, para se poder pensar. Não se foge da raiva como não se foge do amor.
Aliás, não se foge de nada. Olha-se, atravessa-se e muda-se a narrativa.
Texto de autoria: Sílvia Baptista
Data: 2023-07-26
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