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Medo

Há uns anos li um estudo alemão que elencava os dez maiores medos do ser humano. Naturalmente, o medo da morte vinha em lugar cimeiro. Hoje em dia, parece-me que se fizessem novo estudo, esse lugar seria ocupado não pelo medo de morrer, mas pelo medo de viver.

E temos medo de viver porque temos medo de sofrer, e não há vida sem sofrimento. Não há vida sem angústia, sem dúvida, sem imperfeição, sem escolha, sem raiva, sem arrependimento, sem tudo aquilo que escondemos por detrás de mantras manhosos, afirmações positivas e pensamentos mágicos que nunca saíram da infância.

Que medo é este que não sobrevive à tribulação da vida? De saber que escolher um caminho é eliminar outro, de nos darmos tempo para que as transformações aconteçam, de não cairmos em embustes relacionais, anestesiando-nos com o quotidiano para fingir não ver o que está, distintamente, à nossa frente.

O medo de viver faz-nos andar como se tivéssemos várias vidas, várias hipóteses de fazer tudo outra vez. De amar outra vez, de sentir outra vez, de sermos crianças outras vez. Talvez esse seja o maior perigo de todos. Ou o maior gatilho. Cada um escolhe como pode.





Texto de autoria: Sílvia Baptista
Data: 2022-03-22





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