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Maternar

Nem todas as razões para uma vida sem filhos se prendem com questões do corpo. Há mulheres que não têm filhos porque não querem e outras porque não sabiam que queriam.

Falo agora destas últimas. Há mulheres que nunca quiserem ser responsáveis pela vida de outrem porque não se sentiram particularmente acolhidas na sua própria vida. Há quem não tenha inclinação pela maternidade porque o seu materno ficou manchado por uma mãe funcional mas pouco atenta. Há ainda quem tenha tido a infância marcada, rasgada, ferida de morte e não consiga gerar sequer a ideia de ter uma criança a quem possa acontecer o mesmo. Há também quem não tenha tido a clareza, maturidade, um saber próprio, interno, que lhe permitisse tomar essa decisão em tempo útil.

Estas também são mulheres com um luto por fazer. São as que tomaram uma decisão de forma aparentemente livre mas refém de uma vida com pouca ou nenhuma ternura, com pouco ou nenhum amor filial. Como é que nos tornamos mães sem saber o que é um colo materno?

Não há um nome, uma síndrome, uma patologia para isto, mas o que mais vejo, na vida e no consultório, são mulheres que sofrem por uma decisão impossível de tomar no tempo e lugar em que isso ainda era possível. Instala-se como que uma nostalgia do que não foi, do que aparece agora para ser vivido, de um materno que a vida trouxe tarde demais.

Um abraço a todas.


Imagem: "Mãe", de Paula Rego





Texto de autoria: Sílvia Baptista
Data: 2023-07-26





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