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Um bebé quando nasce é um ser humano, não é um indivíduo com um Eu constituído. O que lhe proporciona essa constituição psíquica não é o facto de ele ter um cérebro. São as ligações primárias ao Outro, à mãe ou aos cuidadores, que lhe permitem tornar-se pessoa, subjetiva e singular.
Poucas coisas são mais bonitas de assistir do que a uma mãe sintonizada com o seu bebé. É qualquer coisa da ordem da ternura mas também do sacrificial, em que a mãe se entrega, de corpo e psique, àquele ser que, sendo humano, ainda não se constituiu por inteiro. Esta entrega materna, esta dança mãe/bebé, são fundamentais e fundadoras da possibilidade de um vínculo primário robusto, securizante e são, base de relações adultas também elas saudáveis.
Hoje em dia, abordar o tema da maternidade é arriscar-se, como estou a fazer agora, ao insulto e à ofensa, porque, algures, parece ter-se aceite que ter filhos é ponto de partida e chegada e que a maternidade é, antes de tudo, um lugar da mulher. E isso é perigoso porque em toda esta formulação, que embeleza eficazmente o discurso contemporâneo sobre a condição feminina, parece estar esquecido o essencial: o bebé.
Fico sempre meio perplexa com os relatos, as imagens, uma certa devassa da intimidade da díade mãe/bebé. Quando os bebés procuram as mães com o olhar, quando tentam comunicar com ela, encontrá-la, dizerem "estou aqui, toma conta de mim", e as mães estão no telefone, dispersas, perdidas em si mesmas, há qualquer coisa que se perde, que impede o bebé de se ligar e, assim, de poder construir-se internamente. Não é a escola que "ensina" as crianças a ser, é a sua ligação com os principais cuidadores.
A função primordial do bebé é existir para a sua mãe. É ela quem tem de acolher as suas "gracinhas", os seus sorrisos, as suas formas de comunicar. Tal como é ela que tem de acolher as suas fraldas sujas, os seus choros, as suas zangas.
Se isto é difícil? Muito. Bastante. Imenso. Mas, pelo amor da santa, peçam ajuda. A solução para a vossa angústia materna não está nas redes sociais.
Não existem (psiquicamente) bebés sem mães. Mas, pelos vistos, existem mães sem bebés. E isso é que é trágico.
Texto de autoria: Sílvia Baptista
Data: 2023-07-26
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